quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Reflexões acerca do cristianismo primitivo


Estudando um pouco sobre o Cristianismo primitivo me deparei com um relato de Luciano de Samósata (125 a 181 d.c), nascido em 125 d.c na província romana da Síria, acerca dos cristãos.A afirmativa é particularmente interessante pelo fato de Luciano ser um pagão que, ao que tudo indica, não era muito simpático aos cristãos.
O texto abaixo foi retirado de uma das obras mais famosas de Luciano de Samósata, “A morte do peregrino” ou “A passagem do Peregrino”:

“Antes de tudo, esses infelizes [cristãos] estão convencidos de que são imortais e de que viverão para sempre. Por isso, desprezam a morte e muitos a enfrentam voluntariamente. Seu primeiro legislador os convenceu de que eram todos irmãos. A partir do momento em que renunciaram os deuses da Grécia, passaram a adorar seu sofista crucificado e amoldaram suas vidas aos seus preceitos. Eles também desprezam todos os bens, mantendo-os para uso comum [...]. Se entre eles aparecer um hábil impostor, que saiba se beneficiar da situação, este se enriquecerá rapidamente pois poderá manipular como quiser essas pessoas que nada percebem.”

Parece que mudamos um pouco ao longo dos séculos.Muitos de nós se deixaram contaminar pelo consumismo, pelo apego exagerado aos bens matérias e aos valores deste mundo.
Inspiremo-nos no exemplo de nossos predecessores e vivamos como irmãos, considerando as pessoas mais importantes que os bens.
Não vamos sucumbir ao materialismo que é o câncer do nosso tempo e nos dobrarmos perante ao Capitalismo que cria necessidades mentirosas.Tudo isso faz com que consideremos os nossos ganhos, lucros e investimentos mais importantes que o amor e a solidariedade.
Acabamos nos esquecendo dos nossos reais valores e da nossa essência. Vale lembrar as palavras de Jesus:

“Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam; mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem destroem, e onde os ladrões não arrombam e nem furtam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”.Mateus 6:19-21

Não se trata de apologia ao comodismo e a mera expectativa de uma era vindoura e sem atitude no presente. Aquele que tem ouvidos ouça.

Lembrei-me de uma frase de João Crisóstomo, eminente teólogo do século III, sobre o comportamento de alguns cristãos:

“Admiramos a riqueza tanto quanto eles ( não cristãos) e até mais.Temos o mesmo medo da morte, o mesmo pavor da miséria, a mesma impaciência com a doença. Somos igualmente aficionados por glória e poder [...] Então como eles poderão crer ?”

Para reflexão.

Paz!

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Eternidade


Este texto começou a ser escrito durante um período de muitos questionamentos e pensamentos aflitivos. A busca por significado era intensa. Hoje vivo um período de maior serenidade e pude escrever um novo parágrafo final para este texto.Espero que gostem.

O que torna a existência do homem relevante?Uma pergunta tão difícil de responder, já me levou a muitos conflitos sobre o que realmente vale a pena. A vida passa tão rápido, por um momento somos jovens cheios de planos e após um piscar de olhos somos velhos que já sentem o cheiro da morte se aproximando,esquecidos,enfraquecidos e apenas com memórias se apagando com uma rapidez cada dia maior de suas mentes.
Por que lutamos, nos esforçamos, sacrificamos, preocupamos se tudo esta condenado ao esquecimento?Hoje ficamos ansiosos pelo futuro, a procura de uma companheira para toda a vida, a procura de um bom emprego e quando alcançamos tudo isso percebemos que tudo esta condenado a desaparecer com o tempo, sequer lembro qual foi o melhor dia da minha vida.
Salomão fala que ninguém se lembra dos que viveram na antiguidade e aqueles que ainda virão também serão esquecidos pelos que vierem depois deles, todos querem ter realizações para serem lembrados, mas isso é uma ilusão. Que maldição para o homem viver esforçando-se para realizar coisas que estão condenadas ao pó. Tentei simplesmente evitar tais pensamentos e assim me sentir melhor, mas temi que os anos passassem e eu não tivesse feito nada de relevante. Afligia-me pensando nestas coisas, e cheguei a comparar a vida a um sanduíche ambos prazeres efêmeros,a vida deve ser recheada de alegrias,emoções,realizações e quem sabe em seu fim encontraremos algum sabor.
Não posso entender os inescrupulosos que mesmo após se desfazerem das ilusões da juventude, da sensação de eternidade continuam a cometer crimes, desrespeitos, buscar guerras, violência, roubos e outras agressões ao próximo.O que querem obter?Não há onde esconder essas riquezas, não há pra onde as levar, todos nós estamos caminhando pra um lugar onde nada disso entrará.
Como é feliz o que tem uma fé, que espera algo além desta jornada terrena, que sabe que há algo maior a se construir do que as simples realizações desta vida. Como é feliz o que crê na eternidade, pois sabe que poderá construir coisas que não se acabarão e assim descobrem o verdadeiro significado da esperança.Esperança,a maior motivação do homem,que o anima a prosseguir e a se alegrar com o futuro ainda que o presente seja terrível.Fé, a certeza das coisas que não se vê, a razão de nossa busca. Mediante ela podemos preencher o vazio de nossos corações e saber que não é inútil esta vida, há muitas coisas relevantes a se fazer para si e para o outro.
A eternidade não é uma linha de chegada, de fato, ela já começou para aqueles que nela crêem. Entender isso nos livra da mera contemplação e nos devolve à beleza de vivermos este tempo que nos foi concedido na terra. Não precisamos sofrer com a brevidade das coisas, pois tudo o que fazemos de bom ecoará para sempre e nosso trabalho, nossa família, nossas conquistas estarão sempre contribuindo para que Deus complete a boa obra que começou em nós.
Elevemos então o nosso pensamento àquele que nos criou e colocou em nosso coração o anseio pela eternidade em sua presença, e façamos o bem a toda criatura com fé em Deus e alegria no coração.

"Tudo o que não é eterno, é eternamente inútil." C.S Lewis

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Noites Brancas



O livro "Noites Brancas" é um romance, escrito pelo genial escritor russo Fiódor Dostoievsky, que tem como personagem central um sonhador que vaga pelas ruas de São Petersburgo. Foi escrito durante o período em que o escritor encontrava-se profundamente envolvido em uma conspiração para derrubar o Czar Nicolau I. Muitos intérpretes afirmam que o romance contém diversas alusões à atividade revolucionária do autor.
O nome da obra refere-se ao fenômeno que ocorre em São Petersburgo onde, durante o verão, o sol desaparece às nove da noite e ressurge à meia noite.
O nome deste Blog é, portanto, uma singela homenagem ao grande Dostoievsky, que tanto nos acrescentou com suas obras, aos sonhadores que, como eu estão sempre almejando um mundo melhor, aos revolucionários, que não se calaram em tempos de tirania e por fim às noites que com certeza são noites brancas, iluminadas por grande criatividade, definitivamente o melhor horário para se pensar e escrever.

A Fraternidade Universal


Passava distraidamente pela rua quando percebi um desconhecido me estendendo a mão, meio desconfiado eu relutei em retribuir, mas acabei cedendo e o cumprimentei. Com um sorriso no rosto ele perguntou pelo meu nome e contou que era o seu aniversário de cinqüenta anos, razão pela qual abriu os braços e ficou esperando um abraço.
Neste breve momento em que eu hesitei em corresponder o abraço passaram muitas coisas em minha mente. Primeiro pensei que o homem poderia estar bêbado ou sujo, depois imaginei que poderia estar criando esta situação para me roubar ou assediar. Por fim me veio um saudosismo de um tempo que eu não vivi, ou que sequer existiu, um tempo em que as pessoas não precisavam desconfiar umas das outras e que poderiam se alegrar com um momento especial de um desconhecido. Pensei em uma sociedade em que as pessoas se interessassem pelas conquistas e necessidades do outro, um lugar onde pudéssemos amar ao outro pelo simples fato de ele ser um semelhante e irmão na criação.
Percebi que vivo em um mundo onde eu não me interesso pelo desconhecido, onde tenho medo de ter contato com estranhos na rua e a criminalidade gera em mim um temor maior do que a vontade de ajudar um necessitado que se aproxima sujo e cambaleante. A violência e os inúmeros golpes que se aplicam diariamente me tornaram uma pessoa desconfiada e me fizeram classificar de malandro todos que em um sinal de transito vem me contar uma historia de tragédia.
Desejei viver em um lugar onde as pessoas não tivessem o coração endurecido a cada dia pelo mal que avança sobre todos, onde eu não considerasse como invasores da minha individualidade todos aqueles com quem não tenho intimidade.
Por fim, parei de tentar imaginar todas as motivações daquele homem e resolvi abraça-lo e me alegrar por ele ter chegado aos cinqüenta anos, decidi acreditar que uma fraternidade universal é possível e que o mundo pode mudar. Abracei aquele desconhecido, um abraço meio sem jeito e ainda um pouco desconfiado, mas um abraço sincero. Desejei-lhe paz e sai andando com uma nova esperança, talvez meio utópica e ingênua, mas que me trouxe felicidade e força para começar a fazer a minha parte.